"Barbie no éden".
Nos últimos tempos, a imprensa tem veiculado casos curiosos de cirurgias plásticas extremas, nas quais os pacientes são modelados para se tornar idênticos a bonecos de brinquedo e a criaturas virtuais de animações. Esse fenômeno parece sugerir uma nova categoria de automodelação do corpo: o avatar. A novidade dessa nova fronteira antropotécnica é a seguinte: o mimetismo não se dá a partir de outro ser humano, mas a partir de seres virtuais.
O caso pode parecer banal. Mas revela um dos temas mais difíceis da Filosofia: a determinação das fronteiras entre physis e tékhne. Isso ocorre porque natureza e técnica se fundam sobre um paradoxo: todo desempenho tecnológico que se manifesta em ato estava, em última instância, inscrito em potência na natureza. O homem de Neandertal tinha uma disposição natural distinta do Homo sapiens. Este, por sua vez, é distinto do homem da Antiguidade. E assim sucessivamente. A própria configuração dessa constante chamada natureza humana muda conforme a interferência das tecnologias.
Se há mil anos a expectativa de vida era de 40 anos e hoje é o dobro, não se trata apenas de um aperfeiçoamento natural, mas do impacto de antibióticos, penicilina, vacinas, medicina preventiva e condições artificiais de manutenção da vida. A determinação de uma natureza humana transistórica sempre implica a idealização de um recorte temporal a partir do qual se postula uma condição natural prévia inexistente. Em outras palavras, o androide não é aquele que tem braços mecânicos. Essa é uma ficção obsoleta do imaginário romântico, oscilando entre Golem e Frankenstein. A nossa pós-humanidade é muito mais banal. Somos todos androides ao ingerir uma mísera aspirina.
A domesticação do horizonte antropotécnico e a mutação literal de nossa fisionomia humana não são nada mais do que a realização consumada do projeto emancipatório moderno. O Paraíso prometido pela religião da autodeterminação humana, nos últimos três séculos. Como sugere o filósofo alemão Peter Sloterdijk, a utopia eugênica, esboçada por Platão, fracassou nas mãos dos totalitarismos de Estado do século XX, mas se encontra em franca e feliz expansão na universalização do capital.
Toda definição de natureza é o exercício do controle discursivo sobre determinados jogos de linguagem (Wittgenstein) que descrevem o que a natureza é ou deveria ser, ou seja, descrevem estados de coisas como se fossem entes reais. Em outras palavras: toda descrição da natureza é uma tecnologia de poder. A naturalização desses dispositivos de poder criou uma fauna mitológica: Deus, acaso, destino, ser, necessidade, substância. E, por fim, natural e tautologicamente, surgiu a última das deusas naturais: a Natureza. Assim, com maiúscula. Uma das tarefas do pensamento no século XXI é despertar desse torpor mítico. Mas ainda há um último resquício da velha mentira naturalista. Uma última miragem naturalista, como diria Clement Rosset, que ainda não se dissipou. É a mentira humanista, que ganhou novo fôlego com o Iluminismo e nos dias de hoje é um dos maiores empecilhos para se pensar seriamente os mecanismos biopolíticos contemporâneos.
Como diria Carl Schmitt, todos que falam em nome da humanidade o fazem com o intuito de enganar. A mentira humanista, sob a hipótese dos direitos humanos e de outros delírios da razão, postula uma inaparente salvaguarda universal da dignidade humana, hipoteticamente legitimada na letra da lei. Ao conceber esse formalismo legal vazio, paradoxalmente o humanismo cria as condições de possibilidade para as mais perniciosas tecnologias de extermínios humanos que se possa imaginar. Em termos reais, o projeto humanista consiste basicamente em ocultar uma realidade incontornável para qualquer compreensão séria de Política: a de que existem seres humanos mais ou menos dignos de viver do que outros. Em termos concretos, isso significa o apagamento do ponto cego do sistema e o eclipse da função nuclear desempenhada pela exceção na totalidade do ordenamento jurídico. Em outras palavras, para usar o conceito de Agamben, se ninguém é matável (homo sacer), todos o são.
Voltando ao fenômeno dos avatares, podemos pensá-lo em duas chaves. Em uma perspectiva evolucionária, não é preciso criar nenhuma distopia para imaginar um mundo dividido entre avatares e não avatares, no qual todos os que não se adaptarem a esse princípio de automutação serão catalogados como outra espécie. Os avatares vão emergir como uma nova humanidade. Nós nos transformaremos em seus animais domésticos ou escravos. Dessa forma, os avatares são uma espécie de Adão e Eva da era pós-humana. Os humanistas podem se perguntar se existiria humanidade sem afeto humano, sem nenhum resíduo carnal em feições de plástico. E eu responderia: emoção, amor, afeto, humanidade - doces ilusões, tristes mitologias fósseis. Quem acreditar neles, não sobreviverá para contar a história. Mas há outra interpretação, igualmente legítima. Podemos supor o seguinte: toda vida que se virtualiza, ou seja, que se identifica a um modelo puramente artificial, perde sua singularidade. E, portanto, como qualquer boneco, sem peso na consciência nem ônus legal, poderá um dia simplesmente ser jogada no lixo.
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Rodrigo Petronio é escritor e ensaísta. Professor da Casa do Saber, da FAAP e da Fundação Ema Klabin. É pesquisador associado do Nemes (PUC-SP), com ênfase em Cinema e Filosofia. Organizou os três volumes das Obras Completas do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva (2010). Autor dos livros História Natural (2000), Transversal do tempo (2002), Assinatura do sol (Lisboa, 2005), Pedra de Luz (2005), Venho de um país selvagem (2009), entre outros.
